terça-feira, 1 de setembro de 2015

Crônica do futuro

Hoje a mesa do pé sujo da esquina estava lotada de mulheres, cada uma com seu estilo, com sua beleza. E o dono do bar? Bom, ele ficou doente e duvidou que sua esposa daria conta. Mal sabe o velho que com ela à frente do negócio o boteco progrediu o que há muito não progredia.

- Dona Jô, desce mais uma! Mas, oh, já sabe, né? Aquela geladinha no capricho! - Dani berrou no meio da rua.

Não precisou muito para ouvir a gargalhada de Luana.

- Gente, essa Dani acha que já é sócia do bar. Mas não era isso que eu queria falar, não. Quero saber é de comer. - Sugeriu Luana.

Em meio a risos, Laura respondeu:
- Comer quem?

Dani nem pensou muito pra responder.
- Eu? Sabe que eu sou doida pra te pegar, né, Luaninha?

Dona Jô chegou com mais uma cerveja pra compôr a mesa, que já empilhava 5 garrafas vazias.

Paula chegou com uma cadeira e se sentou ao lado de Laura.
- Já chego ouvindo Dani tentando comer a Luana. Vocês não mudam mesmo.

Luana enchia os copos, com um sorriso um tanto quanto sem graça.
- Muitos homens, mas pra Dani, muitas mulheres, muito dinheiro, sucesso, sexo, orgasmos e muitas coisas boas porque a gente merece! - Disse Laura. 

- Tim-tim! Todas brindaram.

Paula cutucou Dani.
- Sabe do jogo do Mengão? 

Dani puxou o celular.
- Aqui no grupo estão dizendo que tá 0x0 ainda. Vou dar uma TV nova pra Dona Jô, aí a gente assiste aos jogos aqui. A menos que a Luaninha queira ver só comigo em casa. - Ela riu e tomou um gole de cerveja.

Luana rebateu.
- Dani, um dia vou querer pegar mulher. Tenho certeza. Quando esse dia chegar, juro que te aviso. Mas por enquanto eu só quero saber de comer o meu personal. Ele tem uma bunda e uma cara de que fode tão gostoso!

Dani fez cara de triste e Paula comentou:
-  Por falar em comer e foder bem, o novinho que peguei na formatura da namorada do meu irmão me surpreendeu. Nem contei pra vocês. Comi de novo, acreditam?

Laura fez cara de surpresa.
- Mentira, amiga? O único novinho que comi não mandou bem. Mas bem que tô querendo essa experiência de novo. 

Paula respondeu.
- No próximo jogo do Maraca que tiver você vai comigo. Lá é o fervo. Junta um monte de garoto gostosinho de 17, 18 anos que me deixa até sem ar. 

Laura bebeu um gole de sua cerveja e fez um hi-five com a amiga.

Um moreno alto, de regata, musculoso e suado corria pela rua da frente. Laura não aguentou.
- Lá em casa tem esteira! E meu chuveiro tem uma ducha maravilhosa! Quer não? Ô, moreno...

Luana quase precisou voltar no seu personal. O torcicolo para acompanhar a corrida do moreno foi grande.
- Dani, eu sei que você não gosta de homem, mas vai concordar comigo. Olha aquele careca ali. - Luana apontou. - Tá com uma bermuda tão feia. E esses pêlos que nunca acabam? Ah, não. Tem que ter vaidade.

Dani respondeu:
- Luaninha, meu amor, isso aí é pra vocês não ficarem no 0x0 na balada, que nem tá o meu Flamengo.  Não gosto da fruta, mas ele é uó mesmo. Aquele teu personal também, juro que sou melhor na cama que ele...

Dona Jô ouvia tudo de dentro do bar, querendo poder puxar uma cadeira e sentar na mesa pra compartilhar suas experiências e dizer o quanto seu marido machista e fodão é tão ruim de cama e tem pinto pequeno. Mas ela ficava ali de longe observando a conversa daquelas amigas, tão incrivelmente admiráveis, enquanto dividia seu olhar com cada homem gostoso que passava pela rua. Afinal, olhar não tira pedaço. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O que você faria?

Se você me perguntar se eu sei voar, mesmo não sabendo, direi: - claro, quer vir comigo?
Se você me perguntar se até as coisas mais sem sentido da vida fazem sentido pra mim, direi: - com você por perto nada fica sem explicação.
Se me pedir pra correr uma maratona, eu direi: - a partir de hoje serão 2 horas na academia, chegarei em primeiro lugar por você.
Se você me pedir pra falar mandarim, mesmo sendo milimetricamente difícil, direi: - irei me inscrever hoje mesmo no curso!
Se você me pedir um beijo, darei dois.
Se me largar, irei atrás.
Se me perder, darei um jeito para que me encontre.
Se me pedir pra olhar pro céu, olharei já pedindo pra lua ser nosso presente.
Mas e eu? E se eu te pedisse tudo isso, o que você faria? 
E se eu pedisse apenas pra que as mínimas e mais bonitas coisas fossem as mais importantes, se eu pedisse pra me dar, aliás, pra se dar sem medo, pra me retribuir nos mínimos detalhes, pra me conquistar a todo e qualquer momento... E se eu não pedisse nada e apenas esperasse, o que você faria?

domingo, 28 de junho de 2015

Fica

Fica. Com todos seus sonhos e pesadelos.
Fica. Com seu cheiro e o seu corte de cabelo.
Fica. Fica aqui, com calma ou desespero.
Não vai embora. Fica.
Fica com a sua aura encantada.
Fica com a sua pele clara ou bronzeada.
Não vai embora.
Fica com brigas ou com as melhores noites de sexo.
Fica com seu amor, seu ódio, suas confusões.
Não vai embora.
Fica. Fica aqui com as adversidades da vida. 
Fica com o seu melhor sorriso e o seu melhor abraço.
Fica. Fica com a roupa amassada e o café requentado.
Nos dias de sol e nos gelados.
Não vai embora.
Não vai agora.
Vê se demora.
Fica.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Castelo de areia

Desmoronou
Um castelo de areia na praia do Arpoador
Se desfez
Pelos pés das mãos
De quem próprio o fez

Caiu em segundos
O mundo de quem sequer
Havia mundo

E a areia
Assim como a água
Escorreu por entre os dedos
Vagarosamente

O desespero, a dor, o constrangimento
Se misturavam num mar de tormento
Que as ondas insistiam em sempre trazer de volta

E naquele mar impuro
Não cristalino
Ele decidiu se afogar
Até outro castelo
Desmoronar

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Enquanto seus olhos forem meus - Final

Giulia jantou e entre um papo e outro com sua mãe, pegava o celular para ver se havia chegado alguma mensagem de Alice. E foi assim durante toda aquela noite, o dia seguinte e o outro. Alice não atendia ligações, seu telefone estava desligado. Giulia chegou a se preocupar e pensou em ligar para o pai de Alice, mas preferiu esperar até o fim daquele dia.

Sábado chegou e era dia de mais um show Giulia no bar de Sr. Pereira. Ao acordar, às 10h, escutou a voz de Paulo vindo da sala. Abriu a porta do seu quarto para escutar melhor o que ele falava com a sua mãe.

- Pois é, Chiara, foi mais proveitoso do que imaginávamos. Eles adoraram a proposta. Ah, e o vinho também! – Paulo soltou uma gargalhada alta e engraçada, sua característica.

Giulia, então, se deu conta de que Alice já tinha voltado de viagem e foi correndo para a sala.

- Bom dia, minha filha!

- Giulia! Cada dia mais bonita! – Elogiou Paulo.

Giulia deu um beijo na mãe e agradeceu o elogio.

- E Alice, não veio? - Questionou Giulia prendendo seu cabelo em forma de coque.

- Veio, sim, mas está cansada. Voltou dirigindo, está em casa dormindo. Apareça por lá depois! – Respondeu Paulo.

Giulia sorriu, agradeceu o convite, pediu licença e foi tomar café, pensando em passar mais tarde na casa de Alice.

E assim fez. Às 20h pegou o seu carro e foi até a casa de Alice, mas ninguém a atendeu. Tentou mais uma vez ligar, mas o telefone continuava desligado. Desistiu e foi direto para o bar. Naquele dia o bar estava bem cheio, mas Giulia só desejava que Alice aparecesse até o momento em que começasse o seu show.

Ela, então, afinou seu instrumento, fez um breve aquecimento vocal e começou o seu voz e violão. A sua voz doce, mas forte e marcante ao mesmo tempo, deixavam todos boquiabertos e vidrados naquela menina tão jovem e talentosa em cima de um pequeníssimo palco de um boteco.

Alice acordou às 23h e percebeu que havia dormido o dia inteiro. Ligou o seu celular e viu milhões de chamadas perdidas de Giulia e algumas mensagens. Leu tudo com atenção, inclusive a última que Giulia havia mandado, naquele mesmo dia, horas mais cedo:

“Estive na porta da sua casa, toquei a campainha, bati, gritei, até pedra na sua janela eu joguei, mas ou você realmente apagou ou não quer me receber. Se ainda vir essa mensagem hoje, por favor, apareça no bar. Começo às 22h e termino às 00h.”

Alice pensou no que ia fazer, levantou, mas sua preguiça era tão grande que se jogou novamente na cama.

“São 23h, Alice, ou você vai logo ou você não vai, não é tão difícil assim...” – Alice pensava.

Pegou seu celular e digitou uma mensagem para Giulia.

“Acabei de acordar e parece que um trator passou em cima de mim. Meu pai está na casa do meu tio. Vem pra cá quando acabar aí. Não posso prometer nada além de pizza. Te esperando...”

Giulia terminou o show, feliz com a receptividade do público. Enquanto guardava seu equipamento, lembrou de pegar seu celular e viu a mensagem de Alice. Despediu-se de Sr. Pereira, que nesta noite, lhe pagou o dobro do combinado de tão feliz e satisfeito que estava com o sucesso que Giulia estava fazendo em seu bar.

Eram 00:47 quando Giulia estacionou em frente à casa de Alice. Tocou a campainha e Alice abriu a porta.

- Oi... – Disse Giulia em um tom um tanto quanto seco.

- Oi... – Respondeu Alice.

- Por que você sumiu, não me disse que ia viajar com seu pai e ainda deixou o celular desligado, me matando de preocupação? – Questionou.

- Eu precisava ficar sozinha, Giulia. Sei que foi errado, desculpa, mas me fez muito bem.

Alice colocou seu violão em cima do sofá da sala e sentou ao lado.

- Espero que a gente possa resolver tudo que temos que resolver hoje. – Respondeu Giulia, esperançosa.

Alice agachou na frente de Giulia, colocou a mão nas pernas da amiga e respondeu.

- Nós vamos. Mas, primeiro, vamos comer? Sabe que não sou lá essas coisas na cozinha, mas me arrisquei a fazer uma pizza pra gente. – Sorriu.

Giulia riu.

- Tudo bem. Estou mesmo com fome.

Alice já havia deixado a mesa da sala preparada. Retirou a pizza do forno, serviu e as duas comeram em um silêncio um tanto quanto constrangedor.

- Você vai querer mais? - Perguntou Alice.

Giulia agradeceu, disse que estava deliciosa, mas que não queria mais.

Alice deixou as coisas na cozinha e chamou Alice para o quarto.

- Vamos lá pra cima, está mais quentinho que aqui. – Alice convidou.

Giulia pegou seu violão e as duas subiram para o quarto. Deitaram uma do lado da outra na cama.

- Giulia, olha, eu nem sei como te dizer isso, mas... – Giulia a interrompeu.

- Não, não precisa falar nada.

Alice fez cara de quem não estava entendendo nada.

- Mas você mesma disse que quer resolver as coisas e eu concordo, vamos conversar e... – Alice a interrompeu mais uma vez.

- Antes de qualquer coisa, eu preciso te mostrar isso aqui. – Giulia respondeu, se levantando da cama.

Ela pegou o violão, o tirou da capa e dedilhou uma música.



"Enquanto seus olhos forem meus
Eu prometo não olhar pra mais ninguém, meu bem
Oh, meu bem!
O que é que tem nesse mundo
Tão grande e redondo
De tantas voltas e lugares
Que me prende aqui
Perto de você

Eu sei
Um dia todos eles vão saber
Que a minha vida é você
Mas enquanto esse dia não chegar
Eu só quero ver o sol raiar
Nos seus braços

Eu me afoguei em dezenas
Milhares de vinhos de todos os tipos
Buscando o seu sabor
O seu gosto
O seu rosto
E agora que eu já sei
Onde eu quero ficar
Onde é o meu lugar
Eu prometo

Enquanto seus olhos forem meus
Eu prometo não olhar pra mais ninguém, meu bem
Oh, meu bem!
O que é que tem nesse mundo
Tão grande e redondo
De tantas voltas e lugares
Que me prende aqui
Perto de você
Perto de você
Perto de você
Dentro de você."


Alice a ouvia cantar totalmente encantada e sem piscar. Prestava atenção nas expressões de Giulia, na sua emoção, em como conduzia as notas no violão e em cada palavra que construía aquela música, que a deixou completamente apaixonada.

- Nossa, Giulia... que lindo isso! De quem é a música?

- Sua! – Revidou Giulia.

Alice franziu a testa.

- Minha?

Alice colocou o violão no chão cuidadosamente e chegou mais perto de Alice.

- Sim. Sua. Cada palavra, cada estrofe, cada nota, cada tom... tudo seu, tudo pra você.

O coração de Alice disparou.

- Deixa eu ver se é isso mesmo, se eu entendi. Você está me dizendo que compôs uma música pra mim? Não, uma música não, essa música! Você EStá falando sério? – Alice perguntou incrédula.

- Estou. Tudo que está nessa música é o que eu venho tentando te falar há algum tempo. Na verdade, desde que viajei e tivemos aquela briga horrível. Aquele tempo todo que ficamos sem nos falar me mostrou que o que eu sinto por você é diferente. – Giulia respondeu com lágrima nos olhos.

Em um gesto impulsivo, Alice segurou o rosto de Giulia e deu um beijo em sua boca. Não era preciso estar no mesmo corpo que elas para sentir o coração das duas pulsando a mil.

Alice se deu conta do que fez e parou.

- Desculpa. Eu não sei o que eu te digo, o que eu te falo, o que eu faço.

- Talvez eu não tenha falado e demonstrado isso tudo que estou sentindo da melhor forma, no melhor momento, mas eu não aguentava mais esperar. – Giulia desabafou.

- E a Beatriz? – Alice perguntou.

- A Beatriz foi um caso. Foi um momento que eu quis ter pra entender se o que eu sentia era real, se o que eu queria era realmente verdadeiro.

- E...? – Questionou Alice.

- E aí que eu descobri que é. Que tudo que eu realmente sinto é de verdade. Mas que é única e exclusivamente por você. Fiz também pra tentar te apagar de mim por não saber o que você pensava e sentia, por ter medo de estragar tudo e por querer me livrar disso, mas não consegui. É muito mais forte que eu, Alice.

- Por que se livrar? Você tinha que ter falado comigo... eu fiquei louca com a sua aproximação com a Beatriz, primeiro por achar que estava me trocando, mas depois eu senti que isso ia além de amizade, eu percebi que podia estar perdendo você de um outro jeito e enlouqueci mesmo.

- Então isso quer dizer que você quer a mesma coisa que eu? – Giulia perguntou.

- Não. Eu quero você. Até onde eu sei você não quer você. Você me quer. – Alice riu.

Giulia também abriu um sorriso.

- Então fica comigo? – Pediu Giulia.

- Até o fim da minha vida. – Respondeu Alice.


Um beijo intenso pôs fim na conversa e deu início a uma linda história de amor. E naquela noite elas se amaram, despidas de preconceitos, de incertezas, de roupas.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Enquanto seus olhos forem meus - Parte VII

Ao chegar, deixou a bicicleta no chão da entrada e nem sequer bateu à porta. Saiu entrando, pois sabia que Giulia tinha o costume de não trancar. Subiu as escadas em direção ao quarto e entrou cuspindo as palavras:

- Você não tem o direito de dizer isso e ir embora sem me dar explicação!

Quando se deu conta, viu que Giulia não estava no quarto. Olhou ao redor e não ouviu um barulho sequer.

- Giulia? – Gritou Alice.

- Giulia, eu sei que você está aí, cadê você? – Tentou mais uma vez.

Quando decidiu descer as escadas e procurá-la pela casa, Giulia saiu do banheiro enrolada na toalha.

- Estou aqui.

Alice a olhou de cima a baixo. Giulia estava enrolada em uma toalha de banho azul, com um coque prendendo seu cabelo castanho claro. O olhar de Giulia penetrava os olhos de Alice.

- Vo... você não podia. – Alice gaguejou, um pouco perturbada, sem conseguir falar direito.

- O que eu não podia? – Disse Giulia, enquanto abria o seu closet, em busca de uma roupa para vestir.

Giulia engoliu a seco, respirou e tentou falar outra vez.

- Você não tem direito de fazer o que está fazendo comigo. Muito menos de ter dito aquilo pra mim sem nem se explicar.

Alice escolheu uma calça preta, que combinava perfeitamente com uma blusa branca de manga comprida e a jaqueta de couro, também preta, que havia trazido do Canadá. Deixou com que sua toalha caísse no chão e ficou nua na frente de Giulia, que se manteve estática esperando uma resposta.

- Não posso esconder mais a verdade de você, Alice. Não queria que tivesse falado da forma com que falei, mas você não me deu outra escolha e ainda me mandou embora. Por sinal, está fazendo o que aqui? – Giulia revidou, completamente despida, enquanto procurava uma calcinha e um sutiã.

Alice se sentou na cama e ficou em silêncio.

Giulia, enfim, começou a se vestir e Alice não conseguia tirar os olhos dela.

- Onde você vai? – Perguntou Alice.

- Na casa da Beatriz. – Giulia respondeu rapidamente.

O coração de Alice, que já estava disparado, bateu mais forte e seu semblante mudou. Sua respiração ficou mais forte e uma espécie de raiva começou a tomar conta do seu corpo.

- Entendi. Você vai atrás de mim tentar resolver as coisas, aí eu estou aqui agora pra tentar resolver e você vai pra casa dessa garota. Realmente... o que eu estou fazendo aqui? – Questionou.

Sem titubear, Giulia respondeu, enquanto vestia sua blusa.

- Isso mesmo, Alice. Eu fui atrás de você ontem, hoje... e o que você fez? Nada. Aliás, fez sim, fez com que eu me sentisse uma completa idiota por me importar contigo e com o que a gente tem. Me mandou embora, foi estúpida. Eu não mereço isso.

- Você tem que entender que eu... – Giulia interrompeu Alice.

- Eu não tenho que entender nada, Alice. Eu não quero mais entender nada, falar nada, pensar nada. 

Giulia vestiu a calça preta, mas desistiu ao perceber que estava muito larga. Voltou-se para o seu closet para escolher outra.

Alice se levantou da cama e foi até Giulia. 

- Tá, vai... desculpa. Eu só quero que você entenda que... sei lá, eu também não entendo. Não sei o que está acontecendo.

Giulia parou de mexer em suas roupas e se virou pra Alice.

- Acho que não é a melhor hora pra falarmos disso agora.

- Por que? Tá atrasadinha pra ver a namoradinha? – Disse Alice em tom de deboche.

- Não. Ela não é minha namoradinha. E estou indo encontrá-la porque ela vai ter que voltar pra cidade dela hoje, muito antes dos seus planos. O avô dela morreu. 

Alice levou uma de suas mãos ao rosto, respirou fundo e pegou a mão de Giulia.

- Desculpa. Outra vez. Estamos sendo tão infantis e ridículas. Desculpa. – Alice beijou a mão de Giulia – Desculpa, mesmo.

Giulia assentiu com a cabeça e, com carinho, acariciou o rosto de Alice.

- Tudo bem. Mas, entende que agora não dá. Eu vou levá-la de volta. É o jeito que tenho de ajudar. – Respondeu Giulia.

Alice se corroeu de ciúmes por dentro, mas não demonstrou. 

- Tá. Você quer que eu vá com você? – Sugeriu Alice.

- Não. Obrigada. Vou hoje e volto amanhã. A gente conversa quando eu voltar. Pode ser?

Giulia, enfim, achou a calça que queria e começou a vesti-la. 

- Tudo bem... – Alice concordou, um pouco inconformada.

Giulia levou Beatriz e retornou para sua cidade no dia seguinte. Tentou a todo custo ligar para Alice, mas seu celular só dava na caixa postal. Passou na adega onde sua mãe estava, firme e forte como sempre.

- Oi, minha filha. Como foi lá com a sua amiga? Ela deve estar arrasada, não é mesmo? A viagem de volta foi tranquila, você está bem? 

Giulia deu um sorriso e abraçou a mãe.

- Foi sim, mãe. Tudo certo na ida e na volta, estou sã e salva. E a Beatriz, bom, ela não está bem, né? Mas essas coisas são assim mesmo. – Respondeu dando um beijo na testa da mãe.

- Ai que tristeza. – Sua mãe disse com pena nos olhos.

- Mãe, sabe da Alice? O Sr. Paulo passou por aqui hoje?

- Eles passaram aqui de manhã. O Paulo foi pra Florianópolis, me contou que apareceram dois investidores de surpresa e que o negócio estava quase certo. Comprou até dois vinhos pra levar de presente.

Giulia ficou pensando.

- Então a Alice foi com ele? – Perguntou.

- Foi. Pelo menos a vi no carro.

- Ele falou quando volta? – Giulia perguntou ansiosa.

- Não... vamos comer alguma coisa? Quero fechar aqui. Estou exausta hoje, filha.

Giulia ajudou a mãe a fechar a adega e foram num restaurante japonês a pedido da própria mãe que, apesar de amar sua origem italiana, naquele dia queria outra culinária.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Enquanto seus olhos forem meus - Parte VI



Giulia voltou pra casa pensando em tudo que tinha acontecido. No seu envolvimento com Beatriz, no desentendimento com Alice e foi assim durante o resto da noite inteira. Enquanto Beatriz a enchia de mensagens no celular, Giulia apenas esperava por uma única mensagem de Alice. Por inúmeras vezes tentou ligar, mas manteve firme sua opção de deixar que a amiga a procurasse quando estivesse mais calma e disposta a conversar.

No dia seguinte Alice pegou sua bicicleta e foi dar uma volta em um parque muito bonito da cidade. Fazia frio, tão frio que seu casaco de lã não conseguia sustentar. Mas continuou a pedalar.

Aquele dia especificamente estava maravilhoso. Um sol tímido querendo abrir no início da tarde entre nuvens já mansas, sem qualquer possibilidade de chuva, mas um frio castigador de 6 graus em meio a ventos muito gelados. Alice apoiou sua bicicleta em uma árvore e ela sentou com as costas apoiadas do outro lado do tronco, para um pequeno lago, seu local preferido do parque. Colocou o capuz na cabeça, as mãos por dentro do bolso do casaco e fechou os olhos. Não conseguia pensar em outra coisa que não fosse os últimos acontecimentos com Giulia. Alice não conseguia entender porque se sentia tão irritada com a aproximação da amiga com Beatriz e ficou, por alguns instantes, tentando entender seus ciúmes, algo do qual Giulia ainda não havia causado.

O celular de Alice apitou. Era uma mensagem de Giulia:

“O que está fazendo nesse frio que não está tomando um vinho comigo?”

Alice pensou muito se responderia ou não. Mas respondeu:

“Estou colocando os pensamentos em ordem...”

Giulia retornou:

“No frio, no meio do parque, com tantos lugares melhores, inclusive a minha casa?”

Alice se assustou, olhou ao redor para tentar procurar Giulia, mas não a encontrou.

“Como você sabe que estou na rua? Você está aqui?” – respondeu ainda procurando a amiga ao redor.

“Estive na sua casa e o seu pai me disse que você tinha saído de bicicleta... lembrei que viemos muito aqui de bike.”

“Espera... viemos aqui... então você está aqui? Giulia, para de brincadeira”.

Não deu dois minutos e Giulia apareceu na frente de Alice.

- Estou aqui, sim.

Alice a olhou, sem reação e nada respondeu.

Giulia se sentou ao lado Alice.

- Sabe... Eu queria muito entender porque você está agindo assim. Não faz o menor sentido. – Disse Giulia.

Alice continuou calada.

- Será que você pode me responder, ou será que vou ter que fazer essas perguntas pelo telefone? – Giulia respondeu, já sem paciência.

- Cara, não sei. Não sei de nada e não adianta ficar querendo falar disso. Nem eu quero falar, eu acho. 

- Alice, por favor, para com isso. Não somos mais crianças e pelo amor de Deus, agindo assim parece que vo... – Alice interrompeu.

- Você fala como se quem tivesse feito merda fui eu, né? Você sempre se faz de vítima, engraçado como certas coisas não mudam.

- Não estou me fazendo de vítima, Alice. Não sei mesmo o que tá acontecendo contigo. Como você disse, certas coisas não mudam, mas outras mudam, sim. Estou vendo que você mudou bastante. 

- Me deixa sozinha, Giulia. Em momento algum pedi pra vir atrás de mim. Você mesma disse pra eu te procurar quando estivesse disposta e não te procurei. Entende que ainda não é a hora? – Alice disse impaciente.

- Tá bom. Você tem razão. Sou uma idiota de ter vindo atrás de você. Mas tudo bem. Só vim tentar resolver as coisas e dizer que eu te amo. Te amo muito e estou sentindo sua falta. Não gosto desse clima, já estive fora por muito tempo, agora que estou do seu lado é aqui que quero ficar.

- Engraçado que você não sente minha falta quando está com a Beatriz. Vai embora. Não quero ouvir mais nada.

Alice se revoltou, levantou, saiu andando e, com muita raiva, revidou:

- Talvez porque a Beatriz me dá o que eu quero de você há muito tempo e você não se toca. Você é uma babaca, Alice. 

Giulia desapareceu no parque, em meio a lágrimas contidas. Alice não segurou as suas e levou as mãos ao rosto. Minutos depois, repensando no papo, Alice se lembrou do que Giulia falou: “Talvez porque a Beatriz me dá o que eu quero de você há muito tempo e você não se toca”.

Alice pegou sua bicicleta e pedalou com muita pressa para a casa de Giulia.