segunda-feira, 18 de maio de 2015

Enquanto seus olhos forem meus - Parte VI



Giulia voltou pra casa pensando em tudo que tinha acontecido. No seu envolvimento com Beatriz, no desentendimento com Alice e foi assim durante o resto da noite inteira. Enquanto Beatriz a enchia de mensagens no celular, Giulia apenas esperava por uma única mensagem de Alice. Por inúmeras vezes tentou ligar, mas manteve firme sua opção de deixar que a amiga a procurasse quando estivesse mais calma e disposta a conversar.

No dia seguinte Alice pegou sua bicicleta e foi dar uma volta em um parque muito bonito da cidade. Fazia frio, tão frio que seu casaco de lã não conseguia sustentar. Mas continuou a pedalar.

Aquele dia especificamente estava maravilhoso. Um sol tímido querendo abrir no início da tarde entre nuvens já mansas, sem qualquer possibilidade de chuva, mas um frio castigador de 6 graus em meio a ventos muito gelados. Alice apoiou sua bicicleta em uma árvore e ela sentou com as costas apoiadas do outro lado do tronco, para um pequeno lago, seu local preferido do parque. Colocou o capuz na cabeça, as mãos por dentro do bolso do casaco e fechou os olhos. Não conseguia pensar em outra coisa que não fosse os últimos acontecimentos com Giulia. Alice não conseguia entender porque se sentia tão irritada com a aproximação da amiga com Beatriz e ficou, por alguns instantes, tentando entender seus ciúmes, algo do qual Giulia ainda não havia causado.

O celular de Alice apitou. Era uma mensagem de Giulia:

“O que está fazendo nesse frio que não está tomando um vinho comigo?”

Alice pensou muito se responderia ou não. Mas respondeu:

“Estou colocando os pensamentos em ordem...”

Giulia retornou:

“No frio, no meio do parque, com tantos lugares melhores, inclusive a minha casa?”

Alice se assustou, olhou ao redor para tentar procurar Giulia, mas não a encontrou.

“Como você sabe que estou na rua? Você está aqui?” – respondeu ainda procurando a amiga ao redor.

“Estive na sua casa e o seu pai me disse que você tinha saído de bicicleta... lembrei que viemos muito aqui de bike.”

“Espera... viemos aqui... então você está aqui? Giulia, para de brincadeira”.

Não deu dois minutos e Giulia apareceu na frente de Alice.

- Estou aqui, sim.

Alice a olhou, sem reação e nada respondeu.

Giulia se sentou ao lado Alice.

- Sabe... Eu queria muito entender porque você está agindo assim. Não faz o menor sentido. – Disse Giulia.

Alice continuou calada.

- Será que você pode me responder, ou será que vou ter que fazer essas perguntas pelo telefone? – Giulia respondeu, já sem paciência.

- Cara, não sei. Não sei de nada e não adianta ficar querendo falar disso. Nem eu quero falar, eu acho. 

- Alice, por favor, para com isso. Não somos mais crianças e pelo amor de Deus, agindo assim parece que vo... – Alice interrompeu.

- Você fala como se quem tivesse feito merda fui eu, né? Você sempre se faz de vítima, engraçado como certas coisas não mudam.

- Não estou me fazendo de vítima, Alice. Não sei mesmo o que tá acontecendo contigo. Como você disse, certas coisas não mudam, mas outras mudam, sim. Estou vendo que você mudou bastante. 

- Me deixa sozinha, Giulia. Em momento algum pedi pra vir atrás de mim. Você mesma disse pra eu te procurar quando estivesse disposta e não te procurei. Entende que ainda não é a hora? – Alice disse impaciente.

- Tá bom. Você tem razão. Sou uma idiota de ter vindo atrás de você. Mas tudo bem. Só vim tentar resolver as coisas e dizer que eu te amo. Te amo muito e estou sentindo sua falta. Não gosto desse clima, já estive fora por muito tempo, agora que estou do seu lado é aqui que quero ficar.

- Engraçado que você não sente minha falta quando está com a Beatriz. Vai embora. Não quero ouvir mais nada.

Alice se revoltou, levantou, saiu andando e, com muita raiva, revidou:

- Talvez porque a Beatriz me dá o que eu quero de você há muito tempo e você não se toca. Você é uma babaca, Alice. 

Giulia desapareceu no parque, em meio a lágrimas contidas. Alice não segurou as suas e levou as mãos ao rosto. Minutos depois, repensando no papo, Alice se lembrou do que Giulia falou: “Talvez porque a Beatriz me dá o que eu quero de você há muito tempo e você não se toca”.

Alice pegou sua bicicleta e pedalou com muita pressa para a casa de Giulia.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Enquanto seus olhos forem meus - Parte V

Giulia contou como foi, mas não contou que tinha saído com Beatriz.

Alice não estava muito bem e Giulia logo percebeu. Quando a indagou sobre o que estava acontecendo, Alice disse que ficaria mais dois finais de semana fora e que provavelmente mais dias durante a semana faria viagens curtas com o pai, o que atrapalharia das duas ficarem juntas.

Giulia a abraçou e disse que estava tudo bem.

Nesse meio tempo, Beatriz trocava mensagens com Giulia, ia ao seus shows e os finais eram sempre iguais: saíam juntas para algum lugar. Giulia gostava de como as coisas estavam acontecendo, mas tinha algo ali que não se encaixava. 

Alice na última de suas viagens repentinas conseguiu chegar antes do previsto e foi direto ao bar onde Giulia tocava. Quando chegou, uma surpresa: Giulia já tinha ido embora. Quando perguntou sobre o show para Sr. Pereira, ele disse que havia terminado há cerca de meia hora e que Giulia tinha saído com uma amiga.

Alice ficou paralisada tentando pensar com quem que Giulia podia estar e um filme passou em sua cabeça, do dia em que aquela menina de outra cidade estava no bar. Lembrou do rosto dela, da expressão, do pedido, do olhar de Giulia pra ela e da conversa ao pé do ouvido que tinha presenciado.

Saiu do bar pra tentar achar Giulia. Estava com o carro de seu pai e rodou pela cidade. Ligou no celular da amiga, mas só dava caixa postal. Quando estava prestes a desistir, avistou o que seria parte do carro de Giulia estacionado um pouco distante da estrada, no começo de uma trilha. Estranhou muito aquilo. Giulia jamais deixaria seu carro ali, mesmo que fosse de dia. Parou seu carro do outro lado da rua e desceu, indo em direção àquela estranha cena, que parecia ter saído de um filme de suspense. Conseguia até escutar as batidas de seu coração de tão altas que eram. "Giulia precisa de ajuda", pensava durante o caminho, que parecia demasiadamente longo, até o pequeno automóvel parado fora da estrada.

Foi contornando o carro com cuidado, para não ser percebida. Quando conseguiu ver o que se passava lá dentro, um nó formou em sua garganta e lágrimas ameaçavam brotar em seus olhos. O choque fez com que levasse as mãos à boca. Na verdade, toda a reação do seu corpo não acompanhou o seu raciocínio, que só foi de querer entender o que estava acontecendo. Voltou correndo para seu carro, arrancando dali e indo direto pra casa, sem perceber que Giulia a havia visto. Só pensava que sua amiga estava beijando uma garota.

Chegou em casa e foi para o quarto, trancou a porta e se forçou a fechar os olhos. Como se isso fosse mudar o que tinha acabado de ver. Também não entendia como aquilo podia incomodar tanto. Por o que pareceram horas, ficou assim, de olhos fechados, sem conseguir dormir. Ouviu vozes no andar de baixo, logo em seguida o som de passos cada vez mais próximos. Curtas batidas na porta fez com que arregalasse os seus olhos. 

- Quem é? - Praticamente cuspiu as palavras.

- Amiga, sou eu. Abre? 
Giulia queria saber como explicar o que Alice viu. Como explicar que nesses últimos dias estava se encontrando com uma garota? Não sabia se Alice entenderia ou aceitaria a situação.

Depois de refletir, Alice começou a se levantar e abriu a porta. Quando o fez, viu que Giulia estava sem graça.

- Posso entrar? - Questionou Giulia.

Alice só confirmou com a cabeça e voltou para a cama. Giulia fechou a porta e sentou ao lado da amiga.

- Você está bem? - Perguntou Giulia.

- O que você estava fazendo? Sabe... O que eu vi. Você e aquela menina do bar. 

- O nome dela é Beatriz. E, eu não sei... Aconteceu. Só isso. Aconteceu. - Disse Giulia em meio a confusão de seus pensamentos.

- Aconteceu... Como assim aconteceu? Quando foi isso? Hoje?

- Não. Desde a minha estreia.

- Como? - Alice não podia acreditar no que ouvia. Giulia teve tempo de lhe dizer o que estava acontecendo e preferiu ficar em silêncio. – Por que você...

- Eu quis, mas eu sei lá. Não tive coragem, Alice. Como chegar pra você e dizer: "Oi, amiga, estou ficando com uma mulher e, a propósito, você está bem?" - Eu nunca senti nada disso antes, você sabe.

- Era só chegar e dizer: "Oi, amiga, estou ficando com uma mulher." Somos amigas, até onde eu sei, ou pelo menos éramos, antes dessa garota aparecer.

Giulia ficou sem reação e o silêncio tomou conta do quarto. Alice a observava, ainda não acreditando muito no que estava acontecendo.

- Bom, eu vou embora. Quando estiver disposta a conversar, me procure. Ou não. – Disse Giulia extremamente seca, enquanto se levantava.

Alice ainda pensou em tentar impedi-la de ir embora, mas repensou e ficou estática, vendo Giulia abrir a porta do quarto e sumir ao fechá-la.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Enquanto seus olhos forem meus - Parte IV

- Giulia, vou pagar a conta e te espero lá fora. – Disse Alice já andando em direção ao caixa.


Giulia olhou sem entender e pediu pra que ela esperasse, mas de nada adiantou.

Quando saiu do bar, encontrou Alice encostada em seu carro, a sua espera, com uma lata de cerveja na mão.

Alice olhou pra Giulia.

- Nossa, amiga, você foi muito bem lá em cima. Parabéns. – Giulia falou em tom irônico.

- Obrigada, mas por que você saiu assim de... – Alice a interrompeu.

- Lembra daquela menina que foi falar com você? Quem era? Nunca tinha visto ela por aqui...

Giulia encostou no carro, ao lado da amiga.

- Ela é de uma cidade vizinha, parte da família se mudou pra cá esses dias e ela tá aqui com eles por enquanto.

- Vai morar aqui?

- Não sei, ela não me disse... Vim logo atrás de você. O que aconteceu pra ter saído daquele jeito?

- Nada com que se preocupar. Só estou cansada. Vamos? – Ela olha para Giulia e força um sorriso.

As duas voltam pra casa de Alice. Conversam mais um pouco, enquanto se arrumam pra dormir. Alice deita e dorme em pouco tempo. Giulia, que está na cama ao lado, se levanta e vai até sua bolsa. Pega o papel com o número de Beatriz e o grava em seu celular, sem perceber que seus lábios contorciam-se em um sorriso largo.

No dia seguinte, Giulia foi até o bar como o combinado, deixou tudo acertado com Sr. Pereira. Ela tocaria toda sexta e sábado. Assim que saiu de lá, ligou pra Alice, que ficou superfeliz com a notícia. Chegou em casa, contou a sua mãe, que também ficou radiante.

Naquela noite Giulia estava na varanda do seu quarto tocando, quando se lembrou de Beatriz. Pegou o celular e resolveu ligar pra ela. O papo foi curto. Giulia disse a ela que tocaria novamente no bar na semana seguinte e que se ela quisesse, era pra aparecer. Beatriz disse que iria nos dois dias, pois estava repleta de pedidos. Giulia desligou contendo nos lábios novamente aquele sorriso largo e voltou a tocar.

Ensaiou arduamente durante a semana, fez seu repertório e mostrou pra Alice, que adorou.

Na quinta, quando Giulia estava se preparando para ir pra casa de Alice, o telefone toca e sua mãe leva.

- Filha, Alice no telefone.

Giulia atende e recebe uma má notícia. Alicia viajaria sexta de manhã com o pai mais uma vez, e voltaria no sábado de noite ou no domingo de manhã, o que impossibilitaria ela de ir na estreia de Giulia. Giulia desligou chateada, mas sabia que a teria em todos os outros shows e logo ficou bem.

Giulia teve uma estreia brilhante. O público adorou o show e o Sr. Pereira era só sorrisos.

Beatriz acompanhou o show inteiro escondida para que Giulia não a visse. Ao término, esperou Giulia arrumar seu equipamento e foi até ela.

Chegando perto, bateu palmas e disse: 

- Não podia imaginar um show mais maravilhoso que esse.

Giulia se virou e a viu.

- Pensei que não viria...

Beatriz sorriu de lado.

- Você acha mesmo que eu perderia essa oportunidade?

Giulia fez cara de dúvida.

- E você vai fazer o que agora? – Beatriz questionou.

Giulia guardou o violão e desceu do palco.

- Vou tomar alguma coisa e depois não sei.

- Vamos juntas então? – Tentou Beatriz.

- Claro! - Giulia respondeu em tom exclamativo.

Giulia foi até onde estava seus amigos e sua mãe, que chorou a cada música que a filha tocou.

Se despediram e Giulia foi com Beatriz para o carro, rumo a outro bar.

- E sua amiga, onde está? – Disse Beatriz.

- A Alice teve que viajar...

- Que feio perder a estreia da amiga...

- É, mas não teve jeito, ela trabalha com o pai, então é assim mesmo, eu entendo.

Beatriz olhou para Giulia, que dirigia.

- Bom que podemos conversar mais tranquilamente.

As duas conversaram beberam algumas taças de vinho até às 5 horas da manhã e fecharam o bar.

Na saída, Beatriz contou que ficaria na cidade por mais um mês e que voltaria pra sua cidade no término de suas férias da faculdade.

Giulia gostou e disse que podiam sair juntas sempre, até mesmo com Alice, e que queria Beatriz em todos os seus shows.

Beatriz não hesitou e respondeu que iria aparecer em todos e com vários pedidos.

Giulia lembrou que quando se falaram por telefone, Beatriz disse o mesmo:

- Vários pedidos... Hoje você não fez nenhum, ficou brincando de se esconder...

Beatriz sorriu.

- Estava esperando o momento certo pra fazer meus pedidos. – Disse Beatriz em tom misterioso.

- Bia, o show já acabou, agora só semana que vem pra ter o momento certo de novo, a menos que você queira que eu toque agora.

Beatriz riu e Giulia ficou sem entender.

- Um dos meus pedidos de hoje já foi atendido. O convite pra sair comigo. Falta mais um.

- Então faça o que está sobrando. – Giulia rebateu rapidamente;

Beatriz colocou uma das mãos no rosto de Giulia e foi se aproximando devagar.

- Você já sabe o que eu quero... Sabe desde o momento em que dei meu telefone, desde que me ligou.

Giulia ficou tensa, mas encarou bem a situação.

- Te liguei porque queria te ver de novo, só isso e... – Beatriz a interrompeu tocando seus lábios no de Giulia, que, a princípio, achou estranho beijar uma garota. Mais aquele frio na barriga a cada movimento da língua era indescritivelmente bom.

As duas se beijaram incansavelmente no carro até o dia clarear.

Giulia deixou Beatriz próxima de casa e voltou pensando no que tinha acontecido. Ela ficou mexida, Bia era atraente e só agora ela via isso.

No domingo, Alice chegou de viagem cedo e foi à casa de Giulia saber como tinha sido o show e pedir desculpas por sua ausência.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Enquanto meus olhos forem seus - Parte III

No dia seguinte Giulia andou pela cidade em busca de trabalho. Voltou recém-formada em música e com alguns outros cursos que fez enquanto vivia com sua tia na América do Norte. Passou em alguns bares deixando seu contato e material, também deixou currículo em algumas escolas e cursos próximos.

Na volta pra casa, passou na adega da mãe e lhe deu um abraço apertado.

- Conseguiu alguma coisa, filha?

- Ah, tenho que esperar agora. Vamos ver se alguém me chama pra entrevista em algum colégio. Dois donos de uns bares aqui perto gostaram muito de mim. Ficaram com meu CD. Vão ouvir e entrar em contato. Um deles acho que já está certo.

- É mesmo, filha?
- Aham. Ele disse que ele sente falta de uma voz feminina no bar dele. Vamos ver...

Giulia deu um beijo na mãe foi pra casa.

Sentou na sua cama e pegou o violão. Começou a compor.

Seu celular apitou. Era uma mensagem de Alice.

“Me encontra aqui em casa às 19h. Meu pai viajou, estou sozinha. Se quiser, vem pra dormir. Beijos.”

Giulia colocou uma pequena muda de roupa numa bolsa, se aprontou e foi até a adega da mãe. Avisou a ela que iria dormir na casa de Alice, pegou o carro e foi ao encontro da amiga.

Alice a recebeu e se encaminhou para a sala.

- Meu pai com esse vai e vem pra Gramado não para mais em casa.

- Mas por que ele tem ido lá com tanta frequência?

- Ele tá começando uma sociedade nova com uma empresa de turismo de lá.

Giulia balançou a cabeça em gesto afirmativo e perguntou: - Planos pra hoje?

Alice balançou a cabeça que não.

- Então vamos num barzinho aqui perto. Estive lá pra tentar tocar. Gostei do lugar, acho que vai gostar também.

Foi o tempo de Alice se arrumar e as duas foram até o local.

Alice se encantou com o local. Era aconchegante, espaçoso, charmoso e logo pediu um drink junto com a amiga. As duas conversavam sobre o local e Alice disse a Giulia que seria o máximo vê-la tocando ali.

Minutos depois um senhor que aparentava ter por volta de 50 anos começou a tocar no bar. Voz e violão. MPB com sua própria roupagem. Agradou bastante Giulia, que o olhava tocar e cantar fixamente, curtindo cada momento.

Quando o músico fez o intervalo, o dono do bar foi conversar com ele e de longe avistou Giulia. Não demorou muito, caminhou na direção dela.

- Olha só quem está aqui. Ouvi seu CD hoje e só tenho elogios, menina. - Giulia sorriu sem graça e olhou pra Alice.

- Fico feliz em saber disso, sr. Pereira. Gostaria muito de poder cantar pra essa galera aqui.

- Então aproveita que meu músico está tomando uma água e vai lá dar uma palhinha. – Giulia levantou de imediato e Alice a acompanhou. Ficou em frente ao pequeníssimo palco para ver bem de perto a sua amiga.

Giulia começou a tocar e todos no bar pararam pra vê-la. O bar não tinha mais que dois anos, mas já era conhecido na cidade e um local que era frequentado de domingo a domingo. Nunca uma mulher havia feito show ou qualquer participação. Giulia estava dando um pontapé no que parecia ser um chute a gol. O público se rendeu. Alice parecia não acreditar no que estava vendo e ficou nervosa e feliz por ela e pela amiga.

Quando Giulia iniciava sua terceira canção, uma menina se aproximou do palco com um papel não mão. Alice a olhou e perguntou se ela queria fazer algum pedido pra amiga. A garota confirmou balançando a cabeça e disse que fazia questão de entregar o pedido nas mãos da cantora.

Alice ficou feliz pelo fato de ver que a amiga estava agradando as pessoas presentes e ficou radiante com o pedido.

Quando Giulia terminou de cantar, sob uma sequência de aplausos fortes, a menina entregou o papel e em seguida voltou pra onde estava.

Giulia leu o nome da música que a menina queria e se surpreendeu. Logo abaixo, seu telefone estava anotado e ao lado o seu nome, Beatriz.

- Gente, acabo de receber um pedido. Vou atender com o maior prazer.

Beatriz a olhava de uma distância mediana, bebendo sua cerveja.

Giulia começou a cantar tentando achar Beatriz. Demorou um pouco, mas logo a viu.

Encerrou sua participação com mais uma música, também a pedido de um rapaz que parecia estar bêbado.

Sr. Pereira ficou radiante com a reação do público e com a performance dela, e pediu que ela voltasse no dia seguinte para acertar o contrato.

Alice, que estava junto, esperou só o velho dar as costas para pular no pescoço da amiga.

- Você é meu orgulho! –Disse Alice empolgada.
Giulia deu uma gargalhada: - Você é a amiga coruja, mais boba e mais linda que eu tenho!


Quando Alice se desgarrou de Giulia, Beatriz se aproximou e falou algo ao ouvido de Giulia.

Alice não gostou. Se incomodou. Queria que aquele momento fosse somente delas duas. Seu ciúme exalava pelos olhos.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Enquanto meus olhos forem seus - Parte II


Enfim domingo!

Pedi pra mamãe preparar um bom almoço para receber a Alice. Logo ela chegou com o pai. A campainha tocou e desci correndo as escadas pra atender.

Quando abri a porta, Alice pulou em mim e, se não fosse a parede ao lado, teríamos um tombo digno de um momento pra ser não se recordar.

Mamãe logo veio recebê-los, cumprimentou o seu admirador, digo, Paulo. E Alice não saía de cima de mim.

- Sua louca, não faz isso comigo! – Disse Alice

- Isso o que?

- Ficar cinco anos fora, sendo que um ano deles brigada comigo.

Sorri.

- Agora não vou mais sair daqui.

Ela apertou meu nariz: - Acho bom mesmo. - Sorriu.

Saiu de cima de mim e enfim o Sr. Paulo pôde me cumprimentar. Sempre elegante e atencioso. Até que era um bom partido pra minha mãe.

Levei Alice pro meu quarto. Abri a porta e ela entrou primeiro. Logo viu um embrulho em cima da cama.

- Vai lá e pega. É seu presente. - Eu disse.

Ela me olhou e foi em direção à cama. Sentei na poltrona ao lado e a observei abrir o embrulho.

O primeiro era uma caixa personalizada dos Beatles, ela era fascinada por eles. Dentro da caixa havia um ursinho, o perfume que ela mais gostava, chocolate e a coletânea com a última temporada da série que ela era aficionada. 

Ela ria, olhava tudo com muita atenção, acariciava os presentes...

- Giulia, você existe?

- Parece que sim.

- Não estou acreditando que trouxe isso tudo pra mim. Amei, sério. Olha essa caixa, e esse ursinho lindo? Não, e o perfume? O chocolate, meu Deus, meu preferido! Quanto aos dvd's... Nossa, ia demorar muito pra ser lançado aqui e você adiantou pra mim. Não tenho o que dizer.

Eu sorri.

- Aliás, tenho sim.

Ela mais uma vez pulou em cima mim e me agradeceu repetidas vezes.

Almoçamos todos juntos. No fim da tarde eu e ela fomos numa praça perto de casa, da qual íamos sempre. Ainda não tinha mostrado o violão pra ela. Estava na capa. Quanto o peguei pra tocar, ela arregalou os olhos.

- Que coisa mais linda!

- É, eu também achei, não me contive, comprei no mesmo dia que vi. E tem um som que... – Alice me interrompeu.

- Não! Estou falando do autógrafo!

Contei a história do autógrafo pra ela e em seguida começamos nossa farra. Eu tocando e ela cantando. Meia hora depois chegou o Jhonny Bravo e a sua trupe. Quero dizer, o Beto.

O chamava assim porque era loiro, forte, topetudo e colocava banca de garanhão, mas mulher que é bom, nada.

- Oi, meninas... Giulia, que feio, nem me avisou que chegava hoje.

- Por que eu deveria? – Alice me cutucou discretamente.

- Porque sou seu amigo e porque estou louco pra te dar uns beijos desde que você viajou.

- Ah, é?

- É. Vamos resolver isso agora? – Ele foi se aproximando de mim.

Sorri pra ele, segurei seu rosto e fui chegando perto da boca dele...

- Não! Se toca, você é um babaca.

Seus amigos tentaram se segurar, mas começaram a gargalhar. Alice ficou sem jeito.

- Tudo bem, hoje você me pisa e amanhã me procura.

- Em que mundo você vive, Jhonny? Só sabe ser algo que não é e não pode ser.

- Garota, você é maluca, não é não? Achei que a viagem fosse melhorar você, mas só piorou. Continua a mesma ridícula de sempre.

- Para, já chega. Chega, chega! Beto, vai embora. Me deixa aqui com a Giulia... Vai. Some. Dá meia volta e caça seu rumo. Anda logo. Chega de gracinha por hoje.

Beto piscou pra Alice e olhou no fundo dos meus olhos.

- Vai ter volta, menininha da mamãe.

Antes que eu falasse algo, Alice tapou minha boca na velocidade da luz.

- Se você pensar em responder qualquer coisa pra ele eu te mato.

Nos olhamos e rimos.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Enquanto meus olhos forem seus - Parte I

Tudo está igual. O sorriso das crianças brincando na rua, a tranquilidade dos pais, o clima fresco e úmido, agradável e viciante do sul. Finalmente voltei pra casa!

Dá vontade de abrir a janela desse carro e pular por ela pra abraçar cada cantinho desse lugar. Cinco anos sendo nômade pela América do Norte parecem que foram todos os meus 21 de vida.

Vinha com um inglês lindo, com saudade da mamãe, com um violão preto autografado com uma caneta branca por Chris Martin, vocalista da banda Coldplay, uma das minhas favoritas. E ah, com uma mala cheia de presentes e outra com as minhas coisas.

Pedi ao taxista para buzinar quando chegamos na porta de casa. Minha mãe apareceu com brilho nos olhos e lágrimas prontas a cair, eu saí correndo para abraça-la. Ficamos agarradas por um longo tempo.

- Meu amor, deixa eu te olhar bem – ela colocou as mãos no meu rosto, me olhou por inteira e me beijou a testa algumas vezes – Está tão linda, tão mulher!

- Mãe, menos...
Ah, meu filhote! Estava sentindo tanto a sua falta, falta desses olhos verdes, desse olhar de criança... - Ela disse eufórica.

- Mãe...

- Meu bebê está tão grande!

-Mãe! Mãe! – A abracei e falei baixinho em seu ouvido – A vizinhança toda está olhando, calma.

Nos soltamos e começamos a rir juntas.

Ela me ajudou com as malas e aquele dia foi exclusivo para eu contar tudo que aconteceu enquanto eu estava fora.

Ela tinha preparado meu prato predileto: ravióli de carne ao molho vermelho e para brindar, um bom vinho, vindo direto da nossa adega. Típico de uma família de sangue italiano.

Após toda essa euforia, levei as coisas para o meu quarto, que estava intacto desde quando viajei.

Deitei na cama, fechei os olhos, suspirei e pensei: como é bom estar de volta.

Mamãe bateu na porta.

- Entra, mãe.

- Esqueci de te dizer... A Alice veio aqui cedo e deixou isso pra você.

Levantei rápido da cama e vi um envelope nas mãos dela. Peguei e comecei a abri-lo.

- Vou para adega, se precisar de alguma coisa me chama.

Assenti com a cabeça e agradeci.

Logo vi um pequeno papel surgindo de dentro do envelope, com letras escritas pela própria mão da Alice.

Sorri abobada e comecei a ler:

“Giulia,

Em primeiro lugar, quero deixar claro o tamanho da falta que fez aqui todo esse tempo. Era pra eu estar aí agora dizendo isso pessoalmente para você, mas tive que viajar hoje cedo com o meu pai. Vamos à Gramado, negócios. Voltamos no domingo. E vou logo avisando: faça tudo que tem para fazer hoje e amanhã, porque domingo seu dia é pra mim! Sinta-se muito beijada e abraçada.

Saudade sem fim.


Alice.”



Alice era uma espécie de melhor amiga. Digo “espécie” porque sempre disse isso a ela para vê-la irritada. Me divertia. Estudamos juntas, fizemos aula de natação juntas e, de quebra, o pai dela era aficionado pelos vinhos da minha mãe. Bem, não era exatamente só pelos vinhos. 

Viajei brigada com ela. Só fomos nos reconciliar um ano depois e à distância. Foi a pior discussão que já tivemos. Discordávamos de muitas coisas, mas nos dávamos mais bem que mal. Senti saudade dessa guria! 

Naquela tarde ajeitei minhas coisas, separei os presentes e logo fui dormir. 

No dia seguinte visitei alguns parentes e aproveitei para ligar para minha tia, com quem vivia no Canadá. Ela morava sozinha. Meu tio morreu quando eu tinha dez anos, o vi duas vezes aqui, no Brasil. Eram muito apaixonados. Desde então minha tia nunca mais amou ninguém. Tinha seus lances passageiros, mas era só isso. Nos dávamos extremamente bem. Ela já chorava ao telefone de saudade. 

A cada coisa nova que via na cidade, queria que minha mãe me contasse detalhadamente. E quando o assunto parecia se esgotar, Alice vinha na minha cabeça. Precisava vê-la.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

O meu céu de paz

Você é o meu maremoto e meu céu de paz.
O meu ponto de equilíbrio e o meu penhasco.
Devo me jogar? E lá em baixo, nas águas mergulhar.
Nadar ou afundar? 
Você é o sonho bom que parece que logo vai acabar.
O início que eu procurava no fim de onde eu estava.
Você é a ventania doce como a água de um lago.
A maresia forte de uma ressaca.
E tudo mais que qualquer pessoa possa querer de bom na vida.