segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Janela da alma


Eu vi uma janela no olhar de uma criança
Eu vi em seu rosto uma esperança
De mudar o que parecia impossível
Eu vi um ser indefeso
Intocável e ileso
De qualquer culpa e afins
Eu vi uma janela no olhar de uma criança
Um suspiro de dor com sabor de vingança
E um semblante inesquecível
Eu vi um tamanho desprezo
Sem causa e efeito
Que pôs em prantos o meu peito
Eu fui uma criança
Com olhar de esperança
Sede de vingança
Dor e mágoas
Que tanto transbordavam em lágrimas
Dignas de uma infinita fraqueza
No espelho hoje eu vejo
Um adulto acabado
Um ser maltratado
Pelo desamor de um pai amaldiçoado

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Tormento

Eu não sei como eu cheguei até aqui. Não sei como adormeci. Mas ao abrir os olhos a única coisa que enxerguei foi o preto, o vácuo, o escuro.
Eu não encontro um feixe de luz qualquer que me oriente. 
Entre o meu desespero e o vazio, me concentro em apalpar o que me cerca a fim de reconhecer uma saída. Tentativas inúteis. 
Deslizo minhas costas na parede até sentar no chão com as pernas dobradas. As envolvo em meus braços e num ato medroso, abaixo minha cabeça até que minha testa encoste em meus braços. 
É assim que vou ficar, por não sei quanto tempo, até que eu possa novamente ver a luz.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Coração puro


- Pai, pai!
- Oi, filho.
- De onde surgiu o amor?
- João, o pai tá lendo jornal agora, conversamos depois.
- Não, pai... só me responde a pergunta.
- Depois, João.
- É rapidinho, vai. Você me responde e eu vou pro meu quarto brincar.
- Tá bom. Fala aí, cara, qual é a pergunta?
- Eu acabei de fazer...
- Faça de novo, estava lendo.
- Eu quero saber de onde veio o amor.
- João, de onde você tirou isso?
- Não sei, pai. Só quero saber de onde ele veio.
- Ah, filho, o amor... o amor...
- Você não sabe, né pai?
- Você me pegou desprevenido. Na verdade eu nunca pensei nisso.
- Então pensa agora e me responde!
- O amor vem do ser humano, da natureza, vem do mundo, do homem.
- E da mulher não?
- Filho, você está apaixonado?
- Não sei, pai. Na verdade eu estou sentindo umas coisas estranhas.
- Que coisas?
- Como se tivessem borboletas batendo as asas aqui na minha barriga.
- E quando isso acontece, filho?
- Quando a Yasmin chega no colégio, ela sempre vem e me dar um beijo na bochecha. Minhas mãos ficam suadas, eu fico nervoso.
- Fica nervoso por que gosta ou por que não gosta do carinho dela?
- Não sei, pai. Ela me deixa nervoso... quando ela fica perto, me olhando muito. Dá esse negócio na minha barriga. Será que dá nela também?
- Não sei... por que não experimenta perguntar pra ela?
- Não consigo, parece que não sei mais falar quando ela fica do meu lado.
- Respira com calma e conversa com ela.
- E se eu não conseguir?
- Vai conseguir! Ela é bonita?
- Ela tem olhos cor de mel.
- Já vi que gostou dos olhos dela.
- É que os olhos dela estão sempre olhando os meus. Não entendo isso, pai.
- Um dia você vai entender...
- Brigado, pai. Vou brincar com meus carrinhos
- Espera aí, rapaz. Por que me perguntou de onde veio o amor?
- Por que hoje ela disse pra mim “eu te amo”...  Acho que o amor surgiu dela, pai.

sábado, 6 de outubro de 2012

O Diário de Helena - Parte III


“Helena Maia Vanilha, aceita Rodrigo Dualibe Castro como seu legítimo esposo?”
Ah, padre, por favor, no próximo sonho comece logo da parte do “pode beijar a noiva”... Esse cirurgião ainda vai casar comigo!

O papo com a minha mãe ontem no telefone só podia dar nisso. Ela ligou pra minha casa perguntando onde eu estava. Acho que a maluquice é uma coisa de genética. Logo perguntei “ué, você ligou pro meu celular ou pra minha casa?”, e ela, mais rebelde que um adolescente na pior fase da rebeldia responde “eu é que vou saber pra qual número eu liguei, não me faça perguntas difíceis!”. Então eu respondi que estava em casa. Acho que foi a pior coisa que eu podia ter dito, tive que escutar uma ladainha altamente chata: “Helena, mas o que é que está havendo com você, minha filha? E os boys?”, para, para tudo!

A minha mãe me perguntou sobre os “boys”, como assim?

“Boys, mãe? Que boys?”, eu ainda não acreditava no que ela estava me dizendo.
“É, Helena, os boys, os bofes, os carinhas lindos, cheirosos e poderosos... vai me dizer que não está saindo com ninguém?”

Era demais ouvir minha mãe falando daquele jeito, mas tudo bem, eu ia descobrir o motivo.

“Não estou saindo com ninguém não...”

Ela suspirou ao telefone e eu pressenti que lá vinha um testamento pronto.

“Helena, você já tem 34 anos, meu bem. Vai ficar encalhada a vida inteira? Coloca uma roupa que valorize essa sua bunda maravilhosa que herdou de mim e esses peitões lindos que tem agora e vai à luta! Não é possível... você engordou, é isso? Porque olha, mesmo se for isso, não tem problema, a mamãe tá acima do peso, mas eu arrumei um boy tão lindo, jovem, descolado, um amor, estou pensando até em morar junto com ele!”

N-Ã-O   É   P-O-S-S-Í-V-E-L!

Eu parei, respirei, reproduzi tudo que ela tinha dito na minha cabeça de novo e lá fui eu tentar entender e ver se eu não tinha viajado: “Como é que é, mãe?”

“É Helena, você tá devagar, hein? Mamãe tá namorando, ele é um garotão, meu amor, 31 aninhos, surfa, malha, é empresário, arrumei um príncipe.”

PUTA QUE PARIL!

“31 anos??????????? Você pirou, mãe?”

“Não, meu amorzinho, eu só estou fazendo o que você não anda fazendo, pelo visto, né? Me divertindo, beijando na boca e claro, fazendo muito...” Lógico e óbvio que eu não queria escutar o resto e a interrompi.

“Tá bom, tá bom, já entendi, não precisa continuar. Você me ligou pra me contar que está namorando com um cara 30 anos mais novo e jogar na minha cara que eu estou encalhada, é isso?”

“É, filhota... precisa arrumar um boy pra sairmos juntos!”

“Sairmos juntos?”

“Ainda não te contei, mas eu vou com o Ricardinho aí te visitar! Mamãe chega em breve filhota, arruma a casa!”

Ricardinho? Me visitar? Namorando? É, deve ser o fim dos tempos pra mim!
...

Foi com essa linda novidade e com esse pensamento que fui dormir. E hoje acordei desse lindo sonho. Eu nunca te desejei tanto na vida, Dr. Rodrigo Dualibe Castro!
Agora vou afogar minhas tristezas num bolo de chocolate com um cappuccino, porque definitivamente é o que me resta.

Um beijo depressivo.

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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O Diário de Helena - Parte II


Hahahahaha. Eu não encontrei uma forma melhor de começar a escrever que não fosse rindo. Porque, numa boa, está pra nascer uma mulher tão sortuda quanto eu.
Eu sou advogada. Pelo menos eu pretendi ser um dia. Quero dizer... eu sou, mesmo você se perguntando “como assim essa mulher é advogada?”, ah, não estou nem aí. O fato é que o meu chefe fez uma reunião hoje pra discutirmos sobre uns processos que nosso escritório está cuidando. Essa reunião levou três infindáveis horas. Ainda ouvi de um imbecil que não sei fazer um relatório perfeito. Júlio, meu querido, eu queria muito mandar você pra puta que o paril, porque pra pensar em colocar você no mundo, sua mãe só podia ser uma... enfim.

Saí da reunião pior que o bagaço da laranja espremida. Fui ao cinema. Pensei que comendo uma pipoca grande, tomando uma Coca com bastante gelo e depois adoçando a vida com M&M’s eu me sentiria melhor. O filme? Comédia romântica. Já que a vida tá uma piada, vamos assistir aquele filme que nos dá a história completa. A mocinha gosta do mocinho engraçado, eles ficam juntos, algo acontece, eles se separam e no fim do filme eles voltam a ficar juntos... nada melhor que isso, casais perfeitos, filme perfeito!

Lá fui eu. Sentei na última fileira. Na sala só tinha eu e mais 4 pessoas. Era a última sessão do dia, 23:15. Os trailers começaram. Eu devorei a pipoca e antes do filme ter 15 minutos de duração, ela já tinha acabado. Parti para os M&M’s. Uma coisa terrível aconteceu... quando abri o saquinho, desastrosamente e com lágrimas de muito sofrimento vi metade dos meus chocolatinhos voarem. Não sou tão desastrada assim, não sei o que aconteceu... comi o que me restava. Do meio para o fim do filme comecei a escutar um barulho estranho que vinha da cabine de onde o projetavam. Sou muito curiosa. Levantei e subi em cima da cadeira, com meu salto alto e ainda fazendo esforço para conseguir ver a parte de dentro da cabine. Me dependurei no encosto da cadeira e vi uma cena incrível. Um garoto e uma garota, namorada, sei lá, num amasso daqueles proibidos para menores de 21 anos. O casal me viu. Sabem onde eu fui parar depois?

Bom, boa noite. Acabei de chegar em casa desse dia, digamos que surreal. Hahahahahaha. Não podia terminar de escrever de um jeito que não fosse esse, rindo. Definitivamente uma ducha gostosa me espera. (Júlio, se um dia você ler isso, quero que saiba que... que... quero que você continue indo pra puta que o paril!). Até mais.

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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O diário de Helena - Parte I


“Eu não vou negar que sou louco por você, estou maluco pra te ver, eu não vou negar...”, parafraseando Zezé Di Camargo & Luciano a uma hora dessas da madrugada.
Eu não nego mesmo. Assim como não posso mentir que estou na maior das maiores fases bregas da minha vida. Malacabada, de maquiagem borrada e meia calça rasgada. Quem é que liga pra isso? Quem é que liga de verdade pra mim? Só o porteiro pra me avisar que o encanador vai subir, ou que o motoboy da pizzaria chegou.

Eu que achei que no auge dos meus 34 anos estaria arrasando num lindo apartamento, com aquele carinha maravilhoso, bonito e bom de cama. Além de engraçado e sutilmente sarcástico. Não é um príncipe encantado, vai. Eu não queria muito. Sim, queria, passado. Não quero mais. Cansei dessa busca incansável por uma vida perfeita, por construir uma família daquelas de comercial de margarina, tão falsa quanto meus peitos de silicone. Sim, até isso eu fiz pra ver se o tal do cara aparecia. Bem que eu queria que fosse meu cirurgião plástico. Que homem másculo, viril, superinteressante e irresistível. Gay. Que se dane. Somos capazes de viver sós, com exceção de gêmeos, tri, quadri e assim geminianamente por diante, nascemos sós, não é?

Eu acabei de derrubar uma lágrima. Eu me sinto a Bridget Jones num remake fodido. Porra, 34 anos, em casa sozinha numa noite de sexta-feira, tomando uma cerveja e escrevendo num blog... eu passei do estágio da decadência. Mas tá tudo bem, acreditem. Pior que isso é deixar a lista de reprodução de música automática do computador rolar e ouvir Zezé Di Camargo, Júlio Iglesias, Roberto Carlos, Ritchie, Maysa, entre outros que não preciso citar.

Você deve estar se perguntando por que eu não procuro uma terapia. Se não está, eu falo sobre isso numa boa. Eu sei que uma hora, se já não aconteceu, você me acharia louca. Mas eu sou normal. Bom, a terapia já foi um sonho de consumo pra mim. Me apaixonei pelo meu psicólogo na sexta sessão. Eu não me apaixono fácil não, é que ele era demasiadamente inteligente. Homens inteligentes além de sexys, me conquistam assim como um par de ingressos para uma partida de vôlei. Não que eu seja esportista e tudo o mais, é que adoro esse jogo.

Eis que dou meu último gole. A cerveja já estava quente, assim como essa madrugada. Não aguento mais o brilho dessa a tela. Minha vista cansou. Vou tirar a roupa e dormir como vim ao mundo. Fechando o laptop. Volto amanhã. (Pra quem será que eu falei isso? Ninguém quer saber da sua vida. Que coisa, Helena!)... zZZzz.

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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Folhetim


Não parece que foi ontem que nos conhecemos.
Mesmo com tão pouco tempo já sinto que estás na minha vida há anos.
Não somente esses dois, mais há uns dez.
Sinto o mesmo, na mesma proporção por saber que não podemos mais ser 1+1.
O problema não sou eu. Nem você. O problema é justamente esse: nem eu, nem você. Não tem 2. Tem 1 e 1.

Eu te sinto ir embora, voando como aquela folha seca que é levada pelo vento do outono.
Minhas mãos não alcançam. Meu coração aperta. Mas deixo que vá.
Voa folha, voa até seu lar. Voe tão longe quanto conseguir.
Segue a tua rota, a tua bússola, o teu vento guia.
Ficarei no inverno frio torcendo por tua primavera.
Que brotes, que cresças, que sejas leve e a tão bonita folha verde que conheci.

Já não és mais presa ao meu galho. Já não pertences mais ao meu abraço.
Já não és nem podes ser  meu trevo.
Semearei em outro jardim um outro amor digno de um novo folhetim.