Estou
justamente naquele período mensal que afeta a nós, mulheres, e eu, como sempre,
fico daquele jeito, tendo que lidar com essa maldita TPM. Hoje, então, não é
meu dia. Logo que levantei, com o pé esquerdo, lógico, tropecei no meu chinelo
e dei um bico nele que quase saiu pela janela. Fui fazer xixi e só percebi que
não tinha papel higiênico quando terminei. O recurso foi lavar com a duchinha
em vez de enxugar. Mas a água estava tão fria que contraí até o útero, por
alguns segundos acho que voltei a ser virgem. Logo hoje que vai ter um churrasco
do pessoal da faculdade eu vou ficar com a minha personalidade influenciada
pela ação dos hormônios? Nananinanão!, Vou ter que me superar pra me divertir
como se estivesse tudo normal.
A Beth,
uma colega da faculdade, aquela mesmo que me deu um toque sobre a Mariana -
Caraca! Essa mulher me persegue. Por que eu tenho que falar nela!? – Passou lá
em casa com o carro do pai dela. De ônibus, sem sacanagem, não ia dar para ir,
porque a festa foi num condomínio de luxo lá em Vargem Grande, longe pacas.
Quando
nós chegamos, a galera já estava lá há um tempão, Todo mundo de copo na mão e
muitos já estavam bem animadinhos Eu tinha dado uma caprichada no visual pra
tentar empurrar lá pro fundo da minha consciência os argumentos da TPM e notei
que a recepção foi bem mais calorosa que o normal. Fiquei até sem graça com
todo mundo olhando pra gente.
– Que que
é isso, Verena!? Tá arrasando hein! – a Beth falou
– Nem vou
sair de perto de você. Já vi que hoje vai rolar alguma coisa e eu vou ficar na
tua aba.
Um
carinha logo se aproximou me oferecendo bebida. Até que ele era bem
interessante de corpo: barriga legal, quase tanque, malhado e tudo mais. Posso
dizer que era gato, mas o, papo, puta merda, totalmente vazio. Deve pensar com
a cabeça do pau. Pra sair fora dele fui ao banheiro e quando voltei fui direto
para uma mesa onde estava o grupo da minha sala. Assim que sentei, dei de cara
sabe com quem? Adivinhem... Ela, claro, a Mariana. Eu travei. Ela me olhando
com aquele olhar de águia espreitando a presa. Pior que eu fico como uma presa
mesmo. Eu não sei que poder ela tem, ou fraqueza que eu tenho, sei lá. Só sei
que quando ela está perto tenho a impressão que me atrai como um imã que não me
deixa escapulir. Ela tira o meu pé do chão, me descontrola.
- Olá, Verena. Que bom que você veio. Estava
começando a ficar entediada - Ela falou aproximando-se de mim. Vamos entrar na
piscina.
- Não. Eu
já bebi muito e estou meio tonta – menti.
- Olha a
mentira! O narizinho vai crescer. Você chegou não tem nem meia hora.
- Acho
que me deram uma bomba pra beber. Estou me sentindo meio enjoada.
- Então
vamos ficar conversando numa espreguiçadeira.
- Sobre
homofobia? O seu assunto preferido?
- Não,
sobre você. Eu quero te conhecer melhor. Você é uma incógnita.
- Você
tem namorado?
- Tenho
um caso, sim – tive uma ideia.
- Mas ele
não veio contigo. Todos que estão namorando ou ficando trouxeram os
respectivos, mas você veio com aquela menina. Como é mesmo o nome dela...
- Beth. A
minha namorada – falei de propósito pra ver a reação dela.
- Verena,
qual é? Eu sei que você não namora a sua colega. Corta essa!
- É
mentira mesmo. O meu namorado não gosta de se misturar com o pessoal da
faculdade. Ele nem queria que eu viesse. Até brigamos por causa disso.
- Eu
também acabei o meu relacionamento.
- Eu sei.
- Sabe
como?
- Me
contaram.
- Como
assim te contaram? Você andou perguntando sobre mim a quem?
- A
ninguém. Eu fiquei sabendo naquele dia que você fez aquela palhaçada comigo na
sala. Todo mundo riu e o babaca do Caio ficou debochando. Falaram que você
tinha terminado o namoro e que estava a fim de mim, por isso estava implicado
comigo.
Quando eu
estava falando, percebi que ela ficou meio sem graça e levantou os olhos.
Adivinhem que estava bem atrás de mim...
Ele mesmo, o babaca do Caio em pessoa.
- Falando
em mim, as minhas professora e coleguinha preferidas?!
Era só o
que me faltava! Ainda tive que aturar aquele garoto idiota.
- Ah,
Caio, vai procurar a tua turma e me deixa em paz – eu falei.
A Mariana
ficou calada e nem olhou para a cara dele. Os olhos dela estavam fixos nos
meus, penetrantes. Eu fiquei meio que paralisada. Será que ela tem o poder de
hipnotizar? Não acho que foi por causa das bebidas que eu tinha tomado. Senti
uma sensação estranha passeando pelo meu corpo, até lá em baixo.
- Você
viu o que provocou naquele dia? Fiquei boladona e agora fico ouvindo piadinhas.
-
Perdoe-me por ter feito aquilo na sala de aula. Acho que foi por instinto.
-
Instinto?!
- É.
Depois eu te explico.
Ela se
levantou e disse que ia pegar bebida pra gente, passando, de leve, a mão de
fada no meu ombro. Quando voltou, estava com uma garrafa de champagne e disse
que era só para nós duas. Estava uma delícia, no final estávamos bebendo pelo
gargalo. De repente todo mundo começou a mergulhar na piscina. O Bruno empurrou
a gente e caímos as duas juntas – o cara é vacilão mesmo, caraça! Eu fiquei
enjoada, disse que ia sair e fui caminhando para a escadinha. Ela me acompanhou
e não é que a safada aproveitou para botar a mão na minha bunda quando me
apoiou para subir!
Depois o
pessoal começou uma guerra de jatos de champagne e eu literalmente tomei um
banho. Fiquei com o corpo todo melado e estava ficando agoniada. Então eu falei
para a Beth -, aquela que me bateu o lance da Mariana – que eu ia tomar uma
ducha no banheiro.
“Mas você
não está tonta e enjoada? Eu não vou deixar você ir sozinha”. A Mariana falou e
foi comigo.
Eu abri o
chuveiro e deixei a água cair no meu rosto. Estava gelada demais, quase
desisti, mas entrei de vez.
- Posso
entrar contigo? - Ela perguntou.
Eu não respondi, mas cheguei um pouquinho para
o lado e ela entrou embaixo do jato d’água.
- Ai!
Está muito fria – ela falou tremendo.
- Fria é
apelido, está gelada – eu falei com a voz tremendo e esfregando os braços,
- Você
melhorou?
- Acho
que sim.
- Você
não está acostumada a beber, não é?
- Não. Só
bebo cerveja, assim mesmo pouco. Mas eu vim tomar banho porque fiquei toda
melada de champagne e estava me dando nervoso – eu falei enquanto afastava o
biquíni do corpo um pouquinho para poder lavar os seios e a parte de baixo
também.
- Eu
também estou toda meladinha. Vou lavar o biquíni.
Ela falou
meladinha com sentido dúbio ou foi impressão minha?
Tirou a
parte de cima e deixou à mostra um par de seios lindos, nem grandes nem
pequenos e com os biquinhos parecendo de adolescente. “Deve ser por causa da
água gelada” – pensei. Depois, sem cerimônia, tirou a parte de baixo para lavar
também. As pessoas que se exibem assim sabem que têm o corpo bonito. O dela é espetacular.
- Você
não vai lavar o seu?
Eu virei
de costas e tirei o biquíni. Lavei depressa e vesti logo a parte de baixo
porque estava com vergonha. Eu nem a conheço direito, além disso, é minha
professora. Fiquei toda atrapalhada para amarrar o sutiã.
- Deixa
eu te ajudar, Verena. Você está nervosa? Pode deixar que eu não mordo.
Ela
amarrou o meu biquíni, mas percebi que ficou muito tempo com as mãos nas minhas
costas, mas por incrível que pareça eu não me incomodei.
- Eu
imaginava que você tivesse o corpo bonito, mas é muito mais. Você é um tesão,
sabia? – Disse passando a mão no meu rosto e um dedo demorou escorregando por
toda a extensão do meu lábio inferior.
- Eu não
sei o que está acontecendo comigo...
- Mas eu
sei.
Ela
levantou os meus braços e encostou, me encostou na parede e colou o corpo ao
meu. Eu ainda estava meio tonta e não fiz nada.
- Eu sei
o que está acontecendo contigo e estou muito feliz.
Ela falou
com o rosto bem perto do meu e eu percebi que ela ia me beijar, pior que eu não
resisti. Fiquei olhando para a sua boca, é muito sensual. Quando ela ia
encostando a boca na minha eu fechei os olhos – não estava acreditando que eu
ia deixar, meu ego deveria estar bêbado. Naquele momento entrou alguém no
banheiro.
- Verena,
você está aí? Está se sentindo mal? – A Beth perguntou.
...
- Verena? Verena?
Fui abrindo os olhos devagarzinho e vi Mariana. Dei um pulo, assustada. Olhei ao redor e vi que estava com Mariana na espreguiçadeira, e o pessoal na piscina, tudo aparentemente normal. Levei as mãos ao meu rosto e as percorri até meus ombros.
- Você está bem, Verena? - Mariana me perguntou.
Respondi fazendo gesto positivo com a cabeça.
- O que foi que aconteceu? - Indaguei Mariana.
- Nós bebemos o champagne, o Beto veio falar que a Daniela tava passando mal, fui lá cuidar dela, você adormeceu. Teve pesadelo?
Eu demorei pra responder, fiquei pensando bem.
- Foi isso mesmo que aconteceu? - Eu a indaguei mais uma vez.
- Foi, por que eu mentiria? Acho que você bebeu demais. - Ela disse sem entender minha pergunta.
Sentei na espreguiçadeira e fiquei pensando no sonho que eu tive, quanto mais pensava, mais meu coração pulsava.
- No que tanto você pensa? - Disse Mariana chegando a espreguiçadeira dela pra perto e mim.
- Tô aqui pensando na Daniela, ela tá bem? - Menti.
- Tá sim, misturou caipvodka com cerveja, não tava comendo e aí passou mal, mas ela já tá bem. Tem certeza que tá pensando nisso?
Não sei de onde me saiu coragem, mas resolvi encarar a fera.
- Mariana, me responde com toda sinceridade que existe em você. Eu atraio você? Você é a fim de mim? - Eu perguntei séria, olhando nos olhos dela.
- Por que essa pergunta assim, agora, Verena? - Ela retrucou.
- Só me responde. Não é difícil.
Ela me olhou bem e respirou fundo.
- Você é um ponto de interrogação pra mim, é marrenta, respondona, além de linda e muito inteligente. Esse conjunto de fatores me atrai, até porque a minha ex namorada é exatamente assim. Mas isso não quer dizer que eu esteja a fim de você, é só uma atração. Você é aluna e eu professora.
Eu a ouvi cuidadosamente.
- Acabei de ter um sonho com nós duas. - Eu disse.
- E o que sonhou?
- Que a sua atração se transformou em desejo real e rolou...
Ela ficou quieta e não disse mais nada.
- Mariana, eu ando muito confusa, eu não sei, não sei o que tá acontecendo comigo. As pessoas ficam me zoando, ficam falando de você o tempo todo, acaba que eu fico pensando nisso o tempo todo e... E sei lá, olha o que eu sonhei!
Mariana pegou minha mão e me levou para um canto longe de onde as pessoas estavam. Me encostou na parede e se aproximou de mim, até chegar muito perto da minha boca.
- O que você está fazendo? Não quero isso, deixa eu sair. - Implorei.
Ela me segurava com força, eu não conseguia sair.
- Mariana, para, por favor!
Ela me olhou nos olhos e acariciou meu rosto. Foi até meu ouvido e sussurrou.
- Você tem que aceitar os fatos. Tem que aceitar quem você é. Precisa entender que você é isso mesmo e que não tem que se importar com o que as pessoas vão pensar de você.
Ela voltou a me olhar e disse bem perto da minha boca.
- O dia que você aceitar a condição e o fato de se interessar por outra mulher, você vai ser muito mais feliz, menos rebelde e estúpida. Enquanto isso, sou apenas e somente a sua professora. Porque no fundo eu sei que você me quer tanto quanto eu te quero. Mas isso nunca vai dar certo.
Ela me soltou e saiu andando. Eu fiquei ali no mesmo lugar parada, vendo ela ir embora, se distanciando. Mesmo sabendo que era verdade tudo que ela disse, eu não podia aceitar. Eu não posso. Mesmo sendo perdidamente apaixonada por ela...
...
É isso, galera! Mário e Ariely, obrigada pela participação de vocês aqui! Quis encerrar a história levando pra um lado que anda acontecendo muito ultimamente: relacionamento homoafetivo e não aceitação. Espero que tenham curtido, gostaria de deixar claro que não sou homofóbica e preconceituosa, apenas retratei uma situação que acontece aos montes!