quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Mar a mar

Sabe, pequena, com você a minha paz é tão serena.
Eu me sinto um misto de Poseidon com Afrodite. 
Me sinto sozinha com você, em pleno mar aberto, num céu azul estrelado. 
Só nós, a sós, com todo amor da vida. 
Como se não bastasse o brilho daquelas estrelas 
tão lindas que fazem o nosso cenário o mais perfeito, 
o seu sorriso ilumina meu rosto e me deixa sem jeito. 
Que coisa boa dá aqui, no peito.
Eu passaria todos os meus dias nesse deleito. 
Pra te ver crescer, pra nos ver brotar.
Pra te amar, de mar em mar, de luar em luar.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

A partida

Talvez eu deveria ter um caderno de anotações com todas as fodas que eu já tive.
Não, não são aquelas fodas que você revira, retorce, se contorce, geme, arrepia e goza. 
São as fodas que você chora, as fodas fortes que te dilaceram em pedaços que você mal sabia que podiam ser partidos.
São as fodas inesquecíveis. Que te machucam e deixam marcas que vão acompanhar a sua memória por muito tempo.

Talvez eu também deveria ser mais escrota. Ser mais egoísta. Ser mais egocêntrica. Ser como alguém que atrai olhares de repulsa e ódio. Só assim eu entenderia tanta foda bem-sucedida na minha vida.

Quem sabe, talvez, eu até, por um acaso, não poderia ir embora, sem dar tchau, sem dizer a hora, sem fazer mala ou deixar recado.

Talvez esteja na hora. Talvez seja agora.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Vermelho

Trêmulas, fadigadas e com pouca energia, aquelas pálpebras incapazes de esquecer a noite passada foram se abrindo. Lentamente, como uma sinfonia de poucas notas, preguiçosa e suave. 

O escuro do quarto parecia ter cor. Vermelho, laranja, ferrugem. Como aqueles aveludados e curtos fios de cabelo que reluziam um brilho mágico. A única coisa que eles viam era a insistente imagem de uma mulher incansavelmente encantadora, radiante e estupidamente quente. De sorriso aquecido, de corpo fogaréu. De olhos em brasa. 

E logo foi esquentando. Esquentando a alma, o acordar de um lindo sonho, o despertar de uma esperançosa manhã. Até o sol de amarelo passou a ser daquela cor indefinida como a daqueles cabelos. Até as pessoas passaram a parecer um tanto com aquela mulher. No jeito, no olhar, no cheiro doce.  Logo tudo foi clareando ao escurecer. 

Ao aparecer da lua cheia com traços daquele rosto angelical de quem nem sonha saber ter. E vermelha, lá estava ela, nua banhando todos na rua, lua, no céu crua, sem estrelas ou culpa. E lá estava ela, em algum lugar de uma viela, beco, estrada ou favela, soltando a fumaça de seu cigarro. Então as pálpebras foram se fechando, escurecendo ainda com a mágica daquela cor viciante, relutante em não sonhar mais uma vez com aquela áurea misteriosa. E esse movimento se repetiu por dias e dias a fio...

quinta-feira, 31 de julho de 2014

A zona das gavetas

Eu queria ter todas as minhas gavetas arrumadas e o coração calmo. Todas as roupas dobradas, separadas e bem dispostas. Todos os medos sanados e todas as fraquezas passageiras. Mas a gaveta sempre dá um jeito de voltar àquela bagunça rotineira de quem não tem tempo de cuidar de absolutamente, nem da vida. E fica tudo assim, jogado, bagunçado, confuso. Pares de meias errados, cuecas emboladas com camisas, uma zona. E a vida vai virando um caos. Vai virando um cão. E as mesmas mãos que tentam arrumar a bagunça da gaveta, vão à cabeça em tom de preocupação. E quando não couber mais roupas? E quando não tiver mais saída? Um armário novo, talvez? Uma mudança de caminho? E quando os questionamentos não conseguem ter respostas? E quando tudo parece não ter sentido e nada parece ser tudo? A gente continua arrumando as gavetas, a gente continua vivendo, esperando que um dia a rotina daquilo que se permite ser rotineiro finalmente aconteça.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Permita-se

Eu podia crer que isso não ia acontecer.
Que eu não ia me apaixonar pelos seus olhos e que não ia sequer querer ver o teu sorriso um milhão de vezes.
Eu podia crer que isso não ia acontecer.
Que eu não ia desejar estar com você o tempo todo e que na minha cabeça você sequer existira.
Eu podia crer. Podia.
E o pior eu ainda nem te contei: se o mundo acabasse hoje, você que eu queria segurando a minha mão.
Então olha pra mim. Se você permitir, eu digo pra sempre.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Em frente

- Em quanto tempo a gente se apaixona?
- E eu é que sei, homem!
- Você não sente saudade de gostar de alguém?
- Ora... O que é que tu tem hoje? Diacho! Eu não sinto saudade não.
- E como você vive sem amor?
- Você tirou o dia pra me atormentar hoje, seu puto? Diacho. Não vivo sem amor. Aquela puta ainda sobrevive aqui dentro. E não quero falar disso. Vai caçar um serviço!
- Que puta?
- Ora, homem! Tá parecendo investigador. Aquela puta que eu amei e me largou. Aquela que eu dei o sangue pra não morrer. Aquela que foi a pior e a melhor de todas as putas que eu tive.
- Por que não estão mais juntos?
- Ela quis seguir a estrada dela e eu deixei. Ia fazer o quê?
- Mas você não parece feliz.
- Quem te disse, seu meio metro de merdinha? Eu sou um cabra feliz. Feliz comigo mesmo. Por que esperar pra ser feliz com alguém se posso ser feliz comigo, diacho?
- É que o senhor não esqueceu dela...
- Nunca vou esquecer. Foi meu maior amor e minha maior dor. Mas eu quero é dar meus passos e andar numa estrada reta que não me mostre retorno.
- E as lembranças não te atormentam?
- Raparigo, na estrada que sigo existem placas que me mostram como voltar. Eu é que escolho ir em frente.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Viver

Numa manhã gelada de um inverno a vida resolveu se apresentar amarga para Fábio. A casa vazia, um monte de caixas de papelão jogadas pela sala, com objetos dos mais variados. Sobre a mesa, um bilhete: “a vida não espera a felicidade chegar, então estou indo atrás dela e sugiro que você faça o mesmo”.
Parecia que o nó da sua gravada ultrapassou o seu pescoço e alcançou a garganta. Jogou seu paletó na mesa que, aos poucos, foi escorregando até encontrar o chão e Fábio ficou ali parado observando lentamente a queda. De certo modo, algo dentro dele dizia que faltava pouco para que ele próprio também caísse. Pôs a mão no bolso e pegou a chave de casa. Bateu a porta e saiu pela portaria do prédio com um olhar perdido, mas ele sabia onde estava indo.
Em exatos sete minutos sentou-se no banco de uma cafeteria que ficava na esquina do quarteirão paralelo ao do seu apartamento. Ele via pessoas apressadas na rua, outras saindo com suas bebidas e algumas dentro do mesmo local que ele estava, tomando café da manhã tranquilamente. Uma delas lia o jornal do dia e seus olhos leram: “Qualidade de vida na Austrália atrai brasileiros”.
- Ô, doutor Fábio. Vai querer aquele expresso de sempre? – Indagou Nelson, interrompendo os pensamentos de Fabio.
- Vou sim, Nelson.
Nelson foi até a máquina de café com uma bonita xícara vermelha de porcelana e retornou.
- Expresso. Doutor vai querer mais alguma coisa? Estamos com um folheado de peito de peru com queijo português que está entre os mais pedidos. – Falou empolgado.
- Não, hoje não. – Fábio ainda olhava o jornal, desta vez não mais lendo as notícias. Seu pensamento estava longe, onde nem mesmo ele sabia.
Nelson estranhou o comportamento do seu cliente e tentou entender o que estava acontecendo.
- Ô doutor, desculpa me meter, mas o senhor parece estar com algum problema.
- Problema eu tenho aos montes, assim como você, meu caro Nelson. Estou errado?
- Não, não está doutor. Mas é que nunca vi o senhor assim com essa cara e essa roupa desgrenhada, até a sua gravata está torta, ela sempre está impecável.
Fábio olhou para sua gravata, levou os olhos para a xícara de café, tomou um gole e olhou Nelson.
- Pois é. Acho que aqui não é mais o meu lugar.
- Oxi, doutor. O senhor gosta tanto daqui.
- É, gosto, mas acho que me daria bem com os cangurus.
Nelson fica calado tentando entender, em sua cabeça, o que os cangurus tinham a ver com a história.
- Doutor Fábio, o senhor perdeu o emprego?
- Não, Nelson...
- Alguém morreu? – Insistiu Nelson.
- Também não. – Respondeu Fábio enquanto tomava seu café.
- Então... a sua esposa... – Nelson pensou alto.
Fábio deu seu último gole no café e olhou Nelson por alguns segundos.
- Nelson, você que é um cara batalhador, veio do interior de uma cidade pequena de outro estado e construiu o seu próprio negócio com esforço e suor. Você que é um cara vivido e experiente. Me diz, o que é a vida?
Nelson franziu a testa estranhando a pergunta, mas rebateu.
- A vida é isso aí que o senhor mesmo disse que fiz, doutor. Batalha, luta, suor e conquista.
- Mas e as quedas? – Questionou Fábio.
- Doutor, até hoje eu caio e me levanto. Vou acumulando roxos, arranhões e hematomas pra na hora que eu vencer lembrar que nada foi à toa.
- Nelson, você é um cara sábio. – Fábio disse batendo no ombro de Nelson enquanto se levantava.
- Mas, doutor, por que é que me perguntou isso?
- Não sei, Nelson. – Ele colocou a mão no bolso, abriu a carteira e colocou uma nota de 10 reais na bancada que os separava. – Talvez eu esteja um pouco perdido.
Nelson recolheu o dinheiro e esticou o braço mostrando a nota para Fábio.
- Hoje é por conta da casa.
- Fábio guardou os 10.
- O senhor sabe o que quer da vida, doutor? – Questionou olhando nos olhos de Fábio.
- Pra saber o que quero da vida, meu amigo, preciso viver.
- E o senhor não está vivo e vivendo?
- Vivo eu estou, Nelson. Mas a minha vida não vai mais ser a mesma.
- Doutor, quer saber de uma coisa? – Indagou Nelson apoiando seus antebraços na bancada. – Vai fazer o que o senhor quer, o que o senhor sonha. Não espere respostas de nada nem de ninguém, muito menos questione as coisas. Vai, simplesmente vai. E vai.
Fábio esboçou um sorriso, apertou a mão de Nelson e se encaminhou para a saída da cafeteria.
- Você é um cara sábio, Nelson. – Disse em tom afetuoso.
- Eu sou um cara que vou, doutor. Eu sempre vou.
- Eu também estou indo, Nelson. Eu vou. – Fábio respondeu enquanto saía do estabelecimento em direção à sua casa.